sábado, 19 de julho de 2008









Poema


A rua fria e escura e
seus personagens doidos
marginais
a cena tragicômica repetida
nas calçadas deformadas & cinzentas
a náusea
o nojo
a triste
'vida'
dos perdidos
maiores menores abandonados
o filme b inacabado documentando
a egoista & cruel noite metropolitana


Mas isso ... é mesmo

vida?!
...

O nojo
a náusea
a miséria
o poder público omisso
& conivente com a barbárie
a triste
cena repetida
repetida
repetida...

CORTA!

domingo, 6 de julho de 2008

Poema




















Poema nostálgico e etílico

*Para o amigo Holte Ramos de Oliveira (Didi), companheiro e protagonista deste poema
*Para o amigo Danilo Nunes Neto, grande companheiro de viagem



Entre um gole e outro e
descobrindo a nós e ao mundo
entre um gole e outro de uisque com campari
e degustando a noite abrigados
no seio da Barbarella

Entre um gole e outro
e o xis completo
e Guevara com seu diário ensanguentado
e as revoluções que articulávamos
e que necessitávamos fazer
no país
no Mundo
e em nós mesmos

Entre um gole e outro
e muitos mais
e muitos porres etílicos
e mentais

Meu amigo e eu e às vezes
meia dúzia mais de convivas
divagando seriamente ou só
matando o tempo
nas mesas do bar simplório
mas tão aconchegante
ponto de encontro dos jovens notívagos interioranos

Noites longas que passavam
tão rápidas
no seio da Barbarella
jovens curiosos/audaciosos
preocupados ou não
com as questões do Espírito
e do Corpo
e alguns com o povo sofrido e suas mazelas
Jovens estudantes entupidos de sonhos e às vezes
de xis & uisque com campari
no seio caliente do Barbarella

II

Enquanto nas selvas de pedra das metrópoles
ou nas selvas expessas do Araguaia
alguns combatiam e muitos sucumbiam
e nem imaginávamos a forma
e de como se deram
seus estertores gloriosos
heróicos e obscuros
e a imprensa amordaçada ou cúmplice contribuia com a noite escura
que cobria o país
e de quase nada sabíamos

Enquanto a maioria precupava-se com sua vidinha
sem sentido parasita egoista e barata
novelas futilidades e futebol aos domingos

Enquanto na calada da noite
padres e freiras e artistas
eram sequestrados
e operários e estudantes resistindo
ou sucumbindo na clandestinidade e na tortura
a Guerra intestina insana e desigual
& o outro brasil dormindo às margens plácidas
sem escutar o brado retumbante
das vítimas civis trucidadas
nos subterrâneos funéreos doentios das câmaras
medievais verde-olivas

Enquanto em outro extremo do Planeta as rubronegras & infernais
bombas e metralhas covardemente lançadas pelo império
rechedas de ódio e napalm
traziam o caos queimando a Terra
e as Carnes inocentes
chamas humanas correndo desesperadas em My Lai

E a fome & a Miséria reinando absolutas & trágicas
no Terceiro Mundo Negro Amarelo Mestiço
Ameríndio
e o os mesmos de sempre banqueteando-se
com o suor e o sangue de suas vítimas
(acusadora culpa pairando incisivamente no Espaço e no Tempo)

III

Noites de boemia
noites de Barbarella
período de gincanas bailes de formatura
amor/paixão às vezes arrasadoras e muitas outras
não correspondidas
& o tédio inquietando a alma
& os caminhos chamando ao desafio
do conhecimento & da aventura
as viagens de carona
os flagêlos
as buscas
estradas tortuosas
trilhas na serra
rotas do mar
as areias de Tramandaí
acampamento hyppie barracas coletivas
solidariedade & cumplicidade
nas rochas de Torres & o mar & a lua
& e sol escaldante por testemunha
a feira de malucos na praça central de Curitiba
as selvas de pedra paulistanas e depois
a emoção de conhecer o Rio
Copacabana Ipanema Leblon
a Barra como destino e
rudimentar e perigoso abrigo noturno

A volta dificultuosa
fome e frio nas estradas chuvosas
incipiente maturidade forjada na rebeldia e
no sofrimento

E tudo isso acontecendo dia-a-dia que representavam
meses eternos
anos que pareciam congelados
a impaciência juvenil elevada
à máxima potência

Condores sobre os Andes
Roncinantes oferecendo parceria para
o desafio
das estradas longas e misteriosas
promessas de aventuras
e o enorme mundo a descobrir

IV

'Companheiro, quem responderá nossas perguntas
nossas dúvidas atrozes que machucam
que subvertem a lógica conhecida
que torturam o corpo
& a alma
e que
como uma peste profana
atemporal
quase destroem nossas incipientes e frágeis
certezas outrora absolutas?
Onde encontrar o Fio da Meada da Verdade?
onde estará o Começo do Caminho?'

V

Entre um gole e outro e buscando descobrir
as Verdades tão palpitantes e latentes
trocando nas geladas noites de julho
o aconchego dos lares aquecidos
pelas intempéries das ruas molhadas pelo orvalho
e fustigadas pelo minuano e pela indiferença
geral

Meu amigo e eu e às vêzes mais
meia dúzia de jovens camaradas
ou curiosos observando ou mesmo participando
de nossas parcas e imprecisas
mas cruciais discussões filosóficas/políticas/enciclopédicas
-sem ainda termos cruzado as Fronteiras dos Limites
-sem ainda termos comido o pós das Estradas do Inferno
-sem termos ainda sofrido o bastante e sabido
o quanto haveríamos e poderíamos
ainda suportar

VI

Assim aconteceu nos chamados 'verdes anos'
nem tão distantes - assim parece, agora -
meu amigo e eu
entre um gole & outro
de uisque com campari e discutindo
poesia/política/aventuras & rock in roll
naqueles idos de 70
descobrindo a Nós e ao Mundo
sob o olhar cúmplice e curioso
da insinuante garçonete morena
e prestativa

Sonhos & paixões
nas trilhas
nas estradas
nos corações & mentes
e nas mesas do Barbarella.

Júlio Garcia

sábado, 21 de junho de 2008

Poema














Os Beatles não devem cantar sozinhos

Amiga, canta comigo
aqueçamos esta noite fria
este ambiente invernal
com nossas vozes calientes
de ternura e paixão

Enquanto na vitrola McCartney canta Get Back
e Yesterday
e diz que Jojo deve desistir das ervas da Califórnia
& voltar para Tucson
que fica no Arizona, em Pima, se não estou enganado

Eu também
cá com meus botões, divago
e entre umas & outras
também acompanho a música
que ordena:

Get Back, Get Back

-Volta, volta
Júlio César
para o lugar de onde você veio e que
não está tão longe
& nem faz tanto tempo assim...
& o tempo é tão relativo e ardiloso
& tua Pasárgada parece que te chama
& há tanta coisa ainda por fazer
por lá...
(novamente)

Na noite de sábado
esta cerveja gelada aquece o corpo
& a alma
e Paul continua cantando
agora Yesterday
e eu vejo o Ontem
& também
vejo o Amanhã


Get Back, Get Back

Amiga, canta comigo
porque os Beatles não devem
cantar sozinhos
ainda mais nesta noite fria
e tão quieta que está lá fora
de tristes ruas sombrias
e desertas
(metrópole gelada & fantasma)

Cantemos, então, aqui dentro
pois quem canta
seus males espanta
assim já diz o dito
popular

E não precisa preocupar-se
com a exatidão
do rítmo pois
preciosismo
não é o mais importante
& aqueçamos - isso sim é o que vale -
esta noite invernal
com nossas vozes calientes
de ternura
& paixão...

Tucson, Porto Alegre, Liverpool, Canoas
& Santiago
tão distantes
tão diferentes
e tão próximas...

& assim eu vejo o Ontem
e também
vejo o Amanhã!

Get Back, Get Back!


Júlio Garcia - 2008

domingo, 15 de junho de 2008









Como Neruda


De tanto nadar contra a maré
de tanto receber
em plena luz do sol ou
na calada da noite
de onde menos esperava
traiçoeiras e quase fatais
punhaladas
de tanto ver a miséria
e a injustiça campeando a rédeas soltas
& abatendo os mais fracos
& os mais humildes
& o sonho da igualdade
& da fraternidade distancioando-se
no espaço & no tempo
& a impunidade grassando
quase incólume
nas 'cúpulas do poder'...

às vezes dá vontade
de 'chutar o balde'
(e mandar às favas as regras
de convivência
ou da 'boa educação')...


....

Mas resisto, respiro fundo e
buscando forças nas reservas da carne
& do espírito
& nos músculos que já não respondem
como em outros tempos
mas que se superam e reagem
- como Fênix

& nauseado e triste
mas resoluto, determinado
continuo em frente
(navegar é preciso)
combato com as armas mais diversas
& entre um
& outro round
como Neruda
encontro tempo para escrever
alguns poucos poemas de amor
e esta canção
desesperada.

Júlio Garcia - 2008

sábado, 14 de junho de 2008

Poema
















Cenas de junho


'Amanhã, vai ser outro dia...' (Chico Buarque)

Em frente ao Palácio
estudantes protestam na tarde gelada
a polícia de 'choque' defende o poder
(questionado)
nas alcovas sombrias
a continuidade dos desmandos é tramada
e o saque voraz das coisas do povo
-continuado
sem pejo
sem controle
e sem dó
alongando a indecência
que agride as consciências
e que mantém incólume
a injustiça
e instiga a revolta

..........

Na tarde invernal
bandeiras vermelhas tremulam ao vento
na praça do povo
que grita de fome
de raiva
& de dor
preparando a desforra

que virá... que virá...

que virá...

Júlio Garcia- junho/2008

domingo, 11 de maio de 2008

Poema











Intervalo



É noite.

A fila avoluma-se frente ao balcão do bar-lanches
O cheiro de frituras & a jukebox
impregnando tudo
tomando conta do ambiente
& as bocas voluptuosas triturando sanduiches
segredos
& o xis-salada

cafés pastéis refris cervejas
'ficadas'
provas política futebol
risos em profusão
'baladas'

& belas e estonteantes curvas insinuantes & sem maldade
pedindo fogo com a douçura
do anjo

E eu, voyer alienígena exótico
em minha mesa solitária comtemplando
a agitada cena estudantil

.....

Então
cabeça nas estrelas
nas estradas
& nas alcovas

bebo um gole de tinto & degusto
antigas & cálidas
recordações

(É noite...)

Júlio Garcia

sábado, 10 de maio de 2008

Poema




















Depois daquela noite, em Santiago

Nunca mais fui o mesmo
depois daquela noite em Santiago
quando entre lençois & beijos & afagos
& troca de fluídos cósmicos & alucinógenas divagações
cavalgando contigo nas galáxias do amor & da libertinagem
vinhos & espelhos & luzes coloridas
tendo Baco & Cupido como cúmplices
de indescritíveis prazeres
nossos corpos cansados suados satisfeitos nus
firmando compromisso de voar para as alturas
estelares da irreverência e do prazer
.....................

não saistes mais de mim, nem eu de ti
nem do meu corpo saiu o teu perfume
etérea gardênia impregnando
meus sentidos
desde então
nunca mais fui o mesmo
depois daquela noite mágica & inesquecível
de gloriosas & homéricas loucuras juvenis
depois daquela doida & caliente
mágica noite de amores
em Santiago...

Júlio Garcia

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Poema beat II

Mochilas repletas de coragem & ansiedade
& de jeans & cantis transbordantes
de cobertores sandwiches & sonhos
determinados a buscar o Conhecimento e a Afirmação
colocamos resolutos nossos pés adolescentes
na longa & tortuosa & perigosa
estrada da Aventura
em direção aos postais & às cruezas & intempéries
& maravilhas do enorme País Desconhecido
mochilas & corpos & almas plenes de energia
& audácia

Júlio Garcia - 2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Poema beat

O ponto de partida foi a velha praça central

Senhora Conceição testemunhava das alturas

o início da aventura juvenil

Tomamos a direção da longa estrada

que nos levaria à descoberta do mundo

e de nós mesmos

E então marchamos resolutos

mochilas nas costas subindo

às alturas soberanas dos condores

e mais tarde também descendo


às encostas das paredes do tempo

e do inferno

Batendo as cabeças iluminadas

nos cristais mágicos das vitrines

observando as portas das boates de Copacabana

mergulhando nas espumas flutuantes & salgadas de Ipanema

e da Barra da Tijuca tão distante

nos botecos do beco da fome

do baixo Leblon & do Leme com direito a banda & marchas de carnaval

na crua realidade e aspereza da vida

nos trens da Central

moças generosas oferecendo

café & carinho & algo mais

Atravesando túneis

quase atropelados/assaltados & famintos

Despachos ofertados nas grutas & encruzilhadas

cruzando precipícios

contemplando fascinados a noite & abaixo o mar violento

audazes molhados & suados

exaustos indignados & felizes

buscando encontrar na escuridão

nosso lugar ao sol

confusos corajosos quixotes aprendizes estrangeiros

& perdidos

na cidade maravilhosa/ trágica/sedutora

& perversa


Júlio Garcia/2008

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008








Poemas Candentes

Estes poemas, candentes
não são 'poemas', somente:
São cacimbas, são vertentes
são coquetéis (molotoves)
são pás, arados, sementes
são lápis, caderno, enxadas
são tesouras, são marmitas
línguas, salivas, dentes...

Ora sorrisos pungentes
ora gritos lancinantes
poemas que são volantes
estradas, facões, varais
(que são bombas incendiárias
ou pomares, parreirais).

São torpedos contundentes
demolidores, letais.

Trazem em seu bojo - ou latente
as lutas de nossa gente
as misérias, as perguntas
particulares - ou gerais
os sorrisos incontidos
exclamações ... ou gemidos
e os enigmas universais...

***

Estes poemas, candentes
não são poemas (somente).


Júlio Garcia - Santiago/1995.