sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Walt Whitman




Poema para Walt Whitman

Cismando nesta noite, olhando as estrelas,
a lua que surge radiante, majestosa,
vem a mim a lembrança do Poeta
do Corpo & da Alma, das Folhas de Relva.

Guardadas as inevitáveis diferenças
físicas -  & a distância -, geradas
por mais de um século
entre eu e você 
(tenho hoje, também, Walt Whitman,
37 anos completados - não faz muito,
e a saúde, no entanto, regular...).

Mais uma vez relendo teus Poemas, camarada
ouso dizer que partilhamos
uma profunda identidade
(cumplicidade)...

Como você, Walt Whitman
(me permita ainda, sem pretenções maiores)
também pretendo
continuar lutando e, se possível,
compondo assim, até o final.

Tentarei cantar, como você (magistralmente)
cantou 
a saga dos soldados, dos operários
& dos jovens homens abatidos
cruelmente, da forma mais vil
& infame imagináveis...

Sim, também cantarei 
& glorificarei os nossos mortos,
os heróis - vitoriosos ou derrotados
os camaradas, os amantes...

Assim como cantarei
os continentes ... os oceanos...
e as partículas mínimas
que integram o átomo/o corpo...
cantarei - também - a metafísica...
o presente, o passado  
& um porvir diferente ... digno, decente (para todos) 
solidário ... e feliz! 

Como você, Walt Whitman
-cósmico e atual, poeta/profeta
eu cantarei a Raça Humana
& os seres -todos- que habitam o Universo...
os rios, os mares, as selvas, os campos, as savanas...

E também, amigo,
poeta-irmão: cantarei em versos livres, despojados,
o gesto delicado, carinhoso
ou viril - do homem, da criança, da mulher -
que anuncia a paixão, a  rebeldia, a curiosidade
& a ternura...

Nesta saga, enquanto haver a Chama 
& a Energia  (que habita 
& impulsiona o Ser):
-a  Vida, a Morte, o Amor
a Justiça 
& a Liberdade (e sua incansável, permanente 
& obcecada busca)...
Eu cantarei.

(Júlio Garcia - do livro Cara & Coragem - Poemas).

sábado, 29 de agosto de 2015

Poema para Laís



Laís - tu representas
(e me trazes)
indescritível alegria
sonhos, bruma leve
cheirinho de mata virgem
riacho escondido
viagem cósmica
      miragem & fantasia

Milagre da Vida
Segredos do  Mundo
     Utopia

A energia da chuva, do sol, da
ventania...
Paz Azul
Do Oceano/Lagoa/Rio
Onda revolta
Areia da Praia
     Cheiro - bom - de maresia

Criança adorada
Amada
Mistério profundo
      Etérea alquimia

-Riso
Arte
Esperança
Sonho
        Poesia...

 (Santiago/RS, fevereiro de 1995).

sábado, 27 de dezembro de 2014

Eu canto!





Eu canto

com profundo prazer, com emoção

o povo que optou por ser livre

e que por isso sangrou.


Os heróis e os anônimos.


A América Latina

(vulcão em atividade permanente).

O fogo descendo pelas encostas das neves andinas,

Eternas, desafiadoras, majestosa...

E madrastas.


Guevara eternizando seu exemplo

nos vales e montanhas bolivianas.

Eu canto o feito épico

de Lamarca lutando contra a fome

e as injustiças no Vale da Ribeira.


As crianças da Nicarágua

entoando suas canções sandinistas

(que falam em um porvir

com rios de leite e mel).


Eu canto a epopéia vivenciada

pelos povos, todos, de nosso imenso

e explorado continente

(do Altiplano, das savanas, dos pampas sem fronteiras,

da Amazônia infinita, das selvas colombianas...).


Eu canto

os camponeses, os índios

despojados de suas terras.

Os combatentes mortos no Peru

nas selvas do Araguaia

nas ruas de Santiago...


Toda a resistência conhecida

(ou anônima)

que houve, ou que haverá (?!) em nossa

Pátria Grande

Eu canto.


A coragem da mulher salvadorenha,

chilena, brasileira, uruguaya...

A saga das loucas

da Plaza de mayo.

De todas as esposas/mães/irmãs/amigas

de todas as fortes, calejadas, saudosas, resistentes

companheiras dos desaparecidos latino-americanos...


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


Por todo o sangue derramado

pelos povos.

Por tudo isso dito, e pelo que ficou

Ainda guardado, esperando o seu momento,

E c o a n d o :

Eu canto!


   Júlio Garcia
...


*Este poema recebeu a ‘Menção Honrosa’ no

XXI Concurso Literário Felippe D’Oliveira

Santa Maria – RS - 1997

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Poema



Altas horas

Altas horas...

Os cães ladram na rua
fantasmas forçam a janela

A noite é longa e inodora
uma música
um poema
tua esquisita e cálida
lembrança

insônia
inquietude
         
- recordações...

a ausência dos
teus lábios
do teu corpo meigo/caliente ...

- otras cositas más

&  meia garrafa de vinho

          (altas horas)

Júlio Garcia - Primavera/2009

domingo, 26 de outubro de 2014

Poema



Identificação

O Poeta não pode apenas
cantar a primavera
quando o inverno social
castiga seu povo

***

Não tenho, pois, as
pretensões acadêmicas
artificiais
com seu lirismo de salão e seus manuais
bolorentos,
bem comportados
que somente privilegiam
o ego(ista).

Minha poesia será feita
com os pés no chão,
identificada com 'o homem',
com 'a terra',
com o social(ista).

Quem sabe não serei apenas
o poeta dos maltratados
dos indigentes
dos exilados
sociais...

O 'ecológico poeta' 
dos córregos
e dos rios
assassinados
das matas
destruídas
pelo 'progresso' 
reacionário.

- o poeta da fome
- o poeta solidário
- o poeta do sonho
e da liberdade.

O Poeta não pode apenas
cantar a primavera
(quando o inverno social
castiga seu povo).


Júlio Garcia, 1994

sábado, 19 de abril de 2014

Comissão da Verdade




Os tempos sombrios deixaram
fatídica herança
& lembranças tétricas recheadas 
de dor/raiva/indignação

O arbítrio - a prepotência - a covardia

(oficializadas)

A longa & vergonhosa noite 
(atordoante)

a democracia

(ultrajada)

Dor/pranto/lamento

-o horizonte cinzento

A resistência heroica
a 'guerra' desigual
travada

(O pesadelo incessante)
...

-Passar a limpo!

-as prisões/os crimes perpetrados
os choques elétricos/afogamentos/pau-de-arara/cadeira do dragão
as 'mãos amarradas' - os assassinatos

(a tortura)

sonhos abortados
gerações amordaçadas/exiladas

(a censura)

vidas/famílias destroçadas

(a Pátria enxovalhada...)
...

Muito tempo depois
das trevas
(finalmente)
brota a luz...

(tenuamente)
...

Ditadura:
urge
passar - tudo - a limpo:

           'para que não se esqueça
                    para que nunca mais aconteça'


                             Júlio Garcia - Canoas/RS - 2014

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Gaza



 Gaza

Gaza cercada e destruída
caças de combate voando raso & assustadores
negros & ameaçadores helicópteros vomitando chumbo
dos céus
mortíferos tanques nas alamedas
bombas fumaça dor & sangue
jovens corpos implodindo desespero e raiva
na terra

o fogo queimando os lugarejos
& as almas
destroçando & incinerando as casas
as carnes os sonhos dos velhos
das mulheres & das crianças
sem porvir

a mão traiçoeira e mesquinha da morte anunciada
covardemente abatendo os mais fracos
os oprimidos
sob o olhar parcial & conivente
& cúmplice
dos poderosos do mundo...

a guerra insana
desproposital
irracional
& desleal

...

Ontem
napalm no Vietnã

Hoje
fósforo branco em Gaza

...

hipocrisia & impunidade
reinando incólumes
& absolutas
em pleno siglo 21

...


BASTA!

sábado, 28 de setembro de 2013

Poema



Na Biblioteca

'Oh! Bendito o que semeia/ livros ... livros à mão-cheia/ e manda o povo pensar...'  (Castro Alves)

Quase por acaso
encontro alguns ilustres luzidios
nas empoeiradas prateleiras cinzentas
& amareladas
da velha biblioteca provinciana

Dentre eles
dois camaradas de olímpicas performances
com seus escritos contundentes
poéticos substantivos & proféticos
suas denúncias contra os opressores
que regam o sistema vil $ infame
que aprisiona e que liquida
a terra a vida o sonho a humanidade

Scorza
dando bom dia para os defuntos
e peguntando pela bala
que abateu ....Vallejo
('um homem passa com um pão ao ombro')
perguntando o que foi feito
de sua Santiago de Chuco
e da Espanha Republicana
....

Pois então
- para minha surpresa e júbilo -
na biblioteca provinciana eu os encontro
quase por acaso
& mergulho nas suas páginas mágicas
& comungo com eles nessa liturgia
pagã conturbada
irreverente
irredutível
& apaixonada
escalando com eles célere as montanhas
- e adentrando, às vêzes, na imensa
& densa treva -
presentes nos romances de Scorza
nos poemas de Vallejo
& nos defuntos de Cerro
de Santiago
& de Madri...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Poema erótico












Amor, Amada
quero viajar contigo nas ondas infinitas dos desejos
nessas curvas insinuantes e
convidativas ao prazer e
ao pecado
ah! essa tua boca fruta temporã pronta para ser colhida
ah! essa tua cara de anjo nostálgico
que eu quero ternamente corromper com minha sede
& safadez

então quem sabe agora
vamos viajar para o inferno bom dos delírios
das alucinações
das loucuras
& da volupia dos amores
sem frescuras & mesquinharias & faz-de-conta
conscientes e recheados de que faremos
pecados sórdidos & gostosos
& necessários nessa viagem cósmica pelos confins
dos corpos e das mentes
eternizando no recíproco louco prazer
a doação dos carinhos &
das químicas transcendentais

seguir juntos nessa imensa, desafiadora
estrada misteriosa

para o Tudo, para o Nada

Amor, Amada...

        Júlio Garcia/2008

domingo, 22 de julho de 2012

Assentamento


  (Para Lacy Osório - 'in memorian')


O trigal
doira as coxilhas
(vergadas pelo arado)
do outrora antigo latifundio.


As crianças
coradas e bem nutridas
voltam da escola
(onde antes ficava o rodeio).


O trigo
substituindo
o descampado
os berros do gado
as brigas de touros.


***


A mudança é clara,
evidente:
o individual
arredando
ao coletivo.


***


No assentamento
a comunhão é realizada
a esperança é renovada
a terra, de forma coletiva,
cultivada...


A história
reescrita;
a Justiça,
(ainda que tardia),
resgatada.


   Júlio Garcia - do livro  'Cara &  Coragem - Poemas'