sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Poema



Altas horas

Altas horas...

Os cães ladram na rua
fantasmas forçam a janela

A noite é longa e inodora
uma música
um poema
tua esquisita e cálida
lembrança

insônia
inquietude
         
- recordações...

a ausência dos
teus lábios
do teu corpo meigo/caliente ...

- otras cositas más

&  meia garrafa de vinho

          (altas horas)

Júlio Garcia - Primavera/2009

domingo, 26 de outubro de 2014

Poema



Identificação

O Poeta não pode apenas
cantar a primavera
quando o inverno social
castiga seu povo

***

Não tenho, pois, as
pretensões acadêmicas
artificiais
com seu lirismo de salão e seus manuais
bolorentos,
bem comportados
que somente privilegiam
o ego(ista).

Minha poesia será feita
com os pés no chão,
identificada com 'o homem',
com 'a terra',
com o social(ista).

Quem sabe não serei apenas
o poeta dos maltratados
dos indigentes
dos exilados
sociais...

O 'ecológico poeta' 
dos córregos
e dos rios
assassinados
das matas
destruídas
pelo 'progresso' 
reacionário.

- o poeta da fome
- o poeta solidário
- o poeta do sonho
e da liberdade.

O Poeta não pode apenas
cantar a primavera
(quando o inverno social
castiga seu povo).


Júlio Garcia, 1994

sábado, 19 de abril de 2014

Comissão da Verdade




Os tempos sombrios deixaram
fatídica herança
& lembranças tétricas recheadas 
de dor/raiva/indignação

O arbítrio - a prepotência - a covardia

(oficializadas)

A longa & vergonhosa noite 
(atordoante)

a democracia

(ultrajada)

Dor/pranto/lamento

-o horizonte cinzento

A resistência heroica
a 'guerra' desigual
travada

(O pesadelo incessante)
...

-Passar a limpo!

-as prisões/os crimes perpetrados
os choques elétricos/afogamentos/pau-de-arara/cadeira do dragão
as 'mãos amarradas' - os assassinatos

(a tortura)

sonhos abortados
gerações amordaçadas/exiladas

(a censura)

vidas/famílias destroçadas

(a Pátria enxovalhada...)
...

Muito tempo depois
das trevas
(finalmente)
brota a luz...

(tenuamente)
...

Ditadura:
urge
passar - tudo - a limpo:

           'para que não se esqueça
                    para que nunca mais aconteça'


                             Júlio Garcia - Canoas/RS - 2014

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Gaza



 Gaza

Gaza cercada e destruída
caças de combate voando raso & assustadores
negros & ameaçadores helicópteros vomitando chumbo
dos céus
mortíferos tanques nas alamedas
bombas fumaça dor & sangue
jovens corpos implodindo desespero e raiva
na terra

o fogo queimando os lugarejos
& as almas
destroçando & incinerando as casas
as carnes os sonhos dos velhos
das mulheres & das crianças
sem porvir

a mão traiçoeira e mesquinha da morte anunciada
covardemente abatendo os mais fracos
os oprimidos
sob o olhar parcial & conivente
& cúmplice
dos poderosos do mundo...

a guerra insana
desproposital
irracional
& desleal

...

Ontem
napalm no Vietnã

Hoje
fósforo branco em Gaza

...

hipocrisia & impunidade
reinando incólumes
& absolutas
em pleno siglo 21

...


BASTA!

sábado, 28 de setembro de 2013

Poema



Na Biblioteca

'Oh! Bendito o que semeia/ livros ... livros à mão-cheia/ e manda o povo pensar...'  (Castro Alves)

Quase por acaso
encontro alguns ilustres luzidios
nas empoeiradas prateleiras cinzentas
& amareladas
da velha biblioteca provinciana

Dentre eles
dois camaradas de olímpicas performances
com seus escritos contundentes
poéticos substantivos & proféticos
suas denúncias contra os opressores
que regam o sistema vil $ infame
que aprisiona e que liquida
a terra a vida o sonho a humanidade

Scorza
dando bom dia para os defuntos
e peguntando pela bala
que abateu ....Vallejo
('um homem passa com um pão ao ombro')
perguntando o que foi feito
de sua Santiago de Chuco
e da Espanha Republicana
....

Pois então
- para minha surpresa e júbilo -
na biblioteca provinciana eu os encontro
quase por acaso
& mergulho nas suas páginas mágicas
& comungo com eles nessa liturgia
pagã conturbada
irreverente
irredutível
& apaixonada
escalando com eles célere as montanhas
- e adentrando, às vêzes, na imensa
& densa treva -
presentes nos romances de Scorza
nos poemas de Vallejo
& nos defuntos de Cerro
de Santiago
& de Madri...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Poema erótico











Amor, Amada
quero viajar contigo nas ondas infinitas dos desejos
nessas curvas insinuantes e
convidativas ao prazer e
ao pecado
ah! essa tua boca fruta temporã pronta para ser colhida
ah! essa tua cara de anjo nostálgico
que eu quero ternamente corromper com minha sede
& safadeza...

então quem sabe agora
vamos viajar para o inferno bom dos delírios
das alucinações
das loucuras
& da volupia dos amores
sem frescuras & mesquinharias & faz-de-conta
conscientes e recheados de que faremos
pecados sórdidos & gostosos
& necessários nessa viagem cósmica pelos confins
dos corpos e das mentes
eternizando no recíproco louco prazer
a doação dos carinhos &
das químicas transcendentais

seguir juntos nessa imensa, desafiadora
estrada misteriosa

para o Tudo, para o Nada

Amor, Amada...

        Júlio Garcia/2008

domingo, 22 de julho de 2012

Assentamento


  (Para Lacy Osório - 'in memorian')


O trigal
doira as coxilhas
(vergadas pelo arado)
do outrora antigo latifundio.


As crianças
coradas e bem nutridas
voltam da escola
(onde antes ficava o rodeio).


O trigo
substituindo
o descampado
os berros do gado
as brigas de touros.


***


A mudança é clara,
evidente:
o individual
arredando
ao coletivo.


***


No assentamento
a comunhão é realizada
a esperança é renovada
a terra, de forma coletiva,
cultivada...


A história
reescrita;
a Justiça,
(ainda que tardia),
resgatada.


   Júlio Garcia - do livro  'Cara &  Coragem - Poemas'             

sábado, 10 de março de 2012

Para Walt Whitman



Poema para Walt Whitman

Cismando nesta noite, olhando as estrelas,
a lua que surge radiante, majestosa,
vem a mim a lembrança do Poeta
do Corpo & da Alma, das Folhas de Relva.

Guardadas as inevitáveis diferenças
físicas -  & a distância -, geradas
por mais de um século
entre eu e você
(tenho hoje, também, Walt Whitman,
37 anos completados - não faz muito,
e a saúde, no entanto, regular...).

Mais uma vez relendo teus Poemas, camarada
ouso dizer que partilhamos
uma profunda identidade
(cumplicidade)...

Como você, Walt Whitman
(me permita ainda, sem pretenções maiores)
também pretendo
continuar lutando e, se possível,
compondo assim, até o final.

Tentarei cantar, como você (magistralmente)
cantou
a saga dos soldados, dos operários
& dos jovens homens abatidos
cruelmente, da forma mais vil
& infame imagináveis...

Sim, também cantarei
& glorificarei os nossos mortos,
os heróis - vitoriosos ou derrotados
os camaradas, os amantes...

Assim como cantarei
os continentes ... os oceanos...
e as partículas mínimas
que integram o átomo/o corpo...
cantarei - também - a metafísica...
o presente, o passado 
& um porvir diferente ... digno, decente (para todos)
solidário ... e feliz!

Como você, Walt Whitman
-cósmico e atual, poeta/profeta
eu cantarei a Raça Humana
& os seres -todos- que habitam o Universo...
os rios, os mares, as selvas, os campos, as savanas...

E também, amigo,
poeta-irmão: cantarei em versos livres, despojados,
o gesto delicado, carinhoso
ou viril - do homem, da criança, da mulher -
que anuncia a paixão, a  rebeldia, a curiosidade
& a ternura...

Nesta saga, enquanto haver a Chama
& a Energia  (que habita
& impulsiona o Ser):
-a  Vida, a Morte, o Amor
a Justiça
& a Liberdade (e sua incansável, permanente
& obcecada busca)...
Eu cantarei.

(Júlio Garcia - do livro Cara & Coragem - Poemas).

domingo, 12 de fevereiro de 2012














O Campeador Desterrado

Sou gaudério, Campeador
Oriundo de mil rincões
Sem medalhas -  ou brazões
Nem posteiro, nem patrão...

-Às vezes - montado garbo
Num soberbo garanhão...

E às vezes -- quando a maré
Da sorte, torna-se ingrata
Quando o destino maltrata
'Redemoinhando' a Razão...

Vou lutar o 'bom combate'.
Eu não conheço a preguiça
Campeio sonhos, justiça
Combatendo destemido
Com a lança firme na mão:
-Sou mais um índio sem terra
Escorraçado ...   na 'guerra'
Cruzando mil corredores
Mas nunca perdendo a fé:

-Sou terneiro desgarrado
-Sou cidadão desterrado:
-Sou mais um gaúcho-a-pé!

Mas ... altaneiro! Não me domam!
Sou aço bem temperado!
Guerrilheiro tarimbado
Não me dou tempo à lamentos:
-No alforge trago guardado
Um farnel de mantimentos...

Sei enfrentar o minuano
As geadas e as tormentas
Sobrevivo às invernias
E não me inibem as tiranias
-Nem vozeirões de arrogância.

Se me querem 'embretar'
Não encontram concordância:
Rebento freios, disparo
Detonando 'estrepolias'
Transpondo léguas, distâncias...

-Sou mais um índio sem terra
'escorraçado' -   na guerra!
Cruzando mil corredores
Mas nunca perdendo a fé:
-Sou terneiro desgarrado,
-Sou um cidadão desterrado
-Sou mais um gaúcho-a-pé...
...
Sou gaudério, Campeador
Oriundo de mil rincões
Sem medalhas - ou brazões
Nem posteiro, nem patrão...

No refúgio de um capão
Retomo o fôlego - e o vigor...
Recomponho o  coração
E o sonho - com destemor
(Porque um forte não se abate!)

Curo assim minhas feridas
Pra seguir nesse combate
-Pra continuar Campeador...

*** 
Letra: Júlio Garcia
Música: Sandro Medina
(Santiago/RS - 1994).

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Poema



A Triste Saga dos Viadutos

A cidade
majestosa e sonolenta
não acompanha
e/ou não sabe
          das tragédias de suas ruas
                                de suas entranhas.

Sob fétido viaduto
disputando com ratos
abriga-se a família...

É noite.
      Desenvolve-se
              soturno ritual:

- Os 'grandes' brigam
        por cachaça

enquanto a mãe
       com o vidro de cola
              engana a fome dos filhos.

 E a classe média
              prepara-se
                        para a novela das oito...

  Júlio Garcia (in 'Cara & Coragem - Poemas')