quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Poema



A Triste Saga dos Viadutos

A cidade
majestosa e sonolenta
não acompanha
e/ou não sabe
          das tragédias de suas ruas
                                de suas entranhas.

Sob fétido viaduto
disputando com ratos
abriga-se a família...

É noite.
      Desenvolve-se
              soturno ritual:

- Os 'grandes' brigam
        por cachaça

enquanto a mãe
       com o vidro de cola
              engana a fome dos filhos.

 E a classe média
              prepara-se
                        para a novela das oito...

  Júlio Garcia (in 'Cara & Coragem - Poemas')

domingo, 27 de novembro de 2011


















De onde nasce o Poema

Da consternação
da revolta
-nasce o Poema

da indignação
da miséria
(fruto direto da ganância &
da arrogância)
-nasce o Poema

das ruas
nuas
dos combates
da repressão
da resistência
-nasce o Poema

das baionetas & das ogivas
(pairando ameaçadoramente sobre nossas
cabeças atordoadas)
-nasce o Poema

da angústia
rouca
da revolta
louca
da rebeldia
da teimosia
-nasce o Poema

da Utopia

-possível

da Luta

da Esperança

-nasce o Poema!


        Júlio Garcia - 1995 -  in  'Cara & Coragem-Poemas'

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Poema


Depois daquela noite, em Santiago

Nunca mais fui o mesmo
depois daquela noite em Santiago
quando entre lençois & beijos & afagos
& troca de fluídos cósmicos & alucinógenas divagações
cavalgando contigo nas galáxias do amor & da libertinagem
vinhos & espelhos & luzes coloridas
tendo Baco & Cupido como cúmplices
de indescritíveis prazeres
nossos corpos cansados suados satisfeitos nus
firmando compromisso de voar para as alturas
estelares da irreverência e do prazer
.....................

não saistes mais de mim, nem eu de ti
nem do meu corpo saiu o teu perfume
etérea gardênia impregnando
meus sentidos

desde então
nunca mais fui o mesmo
depois daquela noite mágica & inesquecível
de gloriosas & homéricas loucuras juvenis
depois daquela doida & caliente
mágica noite de amores
em Santiago...

terça-feira, 10 de maio de 2011

Poema



Quo Vadis?


Estás distante...

A noite promete ser demasiadamente

longa...

o vinho

degustado só...
perde o paladar

o momento
que era para ser cálido
perde o encanto..

Mas .. não ... não estou só!

Acompanha-me

a cálida lembrança tua

sem testemunhas &/ou

interlocutores

absoluta solidão noturna

sem lua branca

sem cruzeiro

ou rumo confiável


A noite perde a  graça

e o encanto

sem tua presença amiga

sem teu perfume inconfundível

sem teu sorriso franco


Onde andas?


A solidão machuca

a noite é fria e silenciosa

as estrelas  pulverizaram-se nos cosmos

nebulosas distantes

quasares inacessíveis

madrugada  silenciosa e fria

sem emoções...

Estás tão distante...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Poema




Atitude

'A las cinco de la tarde.
¡Ay, qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!'
 (Federico Garcia Lorca)

Eventualmente, nas ruas,
se escuta uma frase - indignada e rude:
'Mais do que na hora está
de tomar-se, enfim, uma atitude'...
Enquanto os ponteiros aproximam, inexoráveis,
das cinco 'em punto de la tarde'

Os meninos embrutecidos
& os mendigos amortalhados
disputam míseros centavos
nas sinaleiras incontáveis da metrópole

(Pessoas morrem, são pisoteadas
outras,  insensíveis, famintas, doidas
 cambaleiam - sob o sol que arde.
Enquanto os ponteiros aproximam, inexoráveis,
das cinco 'em punto de la tarde')

As meninas envelhecidas
& as prostitutas decadentes
disputam velhos 'clientes'
nas esquinas

Enquanto o céu borda-se de tristes mantos cinzentos
plúmbeos,
prenunciando uma noite fria
tormentosa
que - talvez -
sensibilize sua frigidez
criminosa  ...

(Enquanto os ponteiros aproximam, inexoráveis,
das cinco 'em punto de la tarde')

A multidão dirige-se   em disparada 
para os terminais das paradas
dos ônibus
-manada-
para o trem/metrô,
para o mercado
ou farmácia
(ironia)

Outras  tão
perdidas
quanto as demais têm pressa &
no intuito de satisfazerem
suas vidas
correm febris em direção aos bares
em vão
para aplacarem a homérica  sede
(agonia)

Nas ruas, martela a frase-
com razão, indignada, rude:
'Mais do que na hora está
de tomar-se uma atitude'.

Enquanto a semana se esvai
afogando-se lentamente, sem alarde
na sexta-feira outonal
E os ponteiros ultrapassam,
finalmente,
as cinco 'em punto de la tarde'...



sábado, 11 de dezembro de 2010

Poema




















NOITE DE VERÃO

Calor escaldante...

Que tal
tomar 'uma fresca'
&  apreciar os Cosmos?...

A noite é  parceira
& ajuda...

Cabeças revoltas
Mirando o Infinito
procurando entender
Os rítmos
&   os desígnios
das estrelas
cadentes...
& seus mistérios

Reconheço
Orion
(Três Marias)
o Cruzeiro
& Vênus

Só?!!

...

Céus,

que limitação...


Mas... amiga ...

A noite é parceira

& ajuda... então

Que tal

tomar 'uma fresca'

& apreciar  os Cosmos

(E algo mais?!...)


Júlio Garcia - Dezembro/2010.

sábado, 20 de novembro de 2010

Poema



Se apenas nos restar, ao fim da tarde

'Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena./Quem quer passar além do Bojador/Tem que passar além da dor.' (Fernando  Pessoa)


Se apenas nos restar, ao final da tarde
uma tênue lembrança de um tempo mágico
& agitado
em que sonhávamos acordados
& o sonho era possível e necessário
e obreiramente buscávamos edificá-lo


E era um tempo de trevas e de glórias
anos anos anos de chumbo, nebulosos
em que com nossos corpos franzinos
escalávamos escarpas de montanhas
e transpúnhamos solenemente os mais íngremes
obstáculos
& correntezas letais
carregando desafiadoramente a bandeira da rebeldia
& da fraternidade
da utopia & da esperança


Companheira
se ao final da jornada
sobrar mais prantos que alegrias
e apenas nosso cão estiver conosco 
festejando  entre nosso olhar cúmplice
& solidário
e um ou dois amigos/companheiros, raros, que restaram
para charlarmos entre um e outro mate
ao fim de uma tarde invernal
onde nossas relembranças & recuerdos
& angústias pautam os assuntos


Mesmo assim, companheira,
com essas verdades metálicas e abrasivas
nos corroendo por dentro
mordendo nossas entranhas &
corações

terá valido a pena
por que fizemos o que tinha que ser feito 

por que era preciso andar pra frente
por que não se podia jamais retroceder


Se o tempo de hoje é diferente
daquele quando nos chamávamos camaradas
e oferecíamos, nas avenidas infestadas
de truculência policial  & contrapondo-se à eles
nossos peitos desnudos mas repletos
de despreendimento & coragem juvenil
E confundíamos nossas vidas, nossos sonhos
E éramos solidários na fome e no combate
& multiplicávamos o pão a energia
& a esperança

Se apenas nos restar uma lembrança
desses tempos gloriosos e obscuros
Mesmo assim, companheira,
Terá valido a pena

por que fizemos o que tinha que ser feito
por que era preciso andar pra frente
por que não se podia jamais retroceder


Se, então, no ocaso dos nossos dias, for essa a realidade,
companheira,
ainda assim terá valido a pena
pois teremos deixado  sementes plantadas
(e sabemos que Gaya,  fértil, fará a sua parte
nosso modesto testamento
para os que vierem depois)

-por que  (ainda) é preciso andar pra frente
-por que não se pode mais retroceder


Se, profunda lástima,  ausentarem-se os amigos mais fraternos
e os camaradas nos virarem as costas
& se o partido frustrar os lutadores
& equivocadamente recuar de sua missão
& a palavra solidariedade for sepultada
nas covas do egoísmo, do oportunismo
& da traição
Se for somente isso o que nos restar, ao fim da tarde

Mesmo assim, não capitularemos
não entregaremos nossas armas, companheira:

Por que é preciso - sempre-  andar pra frente
por que é preciso - sempre - acreditar
que, afinal, apesar das intempéries, dos tormentos
é possível (Fênix)...  vencer...
por que  -  ao fim e ao cabo - a luta, a vida ... vale a pena!
E por que não se pode, jamais,  retroceder!

(Júlio Garcia - Canoas/2009)

Poema














Khadro Ling


No topo da montanha iluminada
de Águas Brancas
Sopram os ventos incessantes que carregam
No seu solidário e irrequieto
dorso errante, as sábias
& abençoadas mensagens de amor, de compaixão,
de ternura e paz
em benefício de todos os Seres
(Bandeiras e Rodas de oração)


No cimo da montanha o Templo soberano
&, mais abaixo
Em harmonia com a natureza preservada
Sob o canto dos pássaros nativos
Mentes -igualmente - iluminadas contemplam
as estátuas colossais artisticamente trabalhadas

Até onde a vista alcança
O vale é verde verde verde
Contrastando com o azul infinito e puro
Dos céus imaculados

Lá embaixo
Serpenteia o pedregoso e revolto Paranhana
Tonificando o pé da montanha misteriosa
A Terra Pura
Onde habitam entre florais & incensos
(recitando suavemente os mantras sagrados,
com suas vozes cálidas & sensuais
repletas de Sabedoria Milenar)

As Dançarinas dos Céus

Júlio Garcia - Nov./2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Poema

















Eu Canto



Eu canto

com profundo prazer, com emoção

o povo que optou por ser livre

e que por isso sangrou.


Os heróis e os anônimos.


A América Latina

(vulcão em atividade permanente).

O fogo descendo pelas encostas das neves andinas,

Eternas, desafiadoras, majestosa...

E madrastas.


Guevara eternizando seu exemplo

nos vales e montanhas bolivianas.

Eu canto o feito épico

de Lamarca lutando contra a fome

e as injustiças no Vale da Ribeira.


As crianças da Nicarágua

entoando suas canções sandinistas

(que falam em um porvir

com rios de leite e mel).


Eu canto a epopéia vivenciada

pelos povos, todos, de nosso imenso

e explorado continente

(do Altiplano, das savanas, dos pampas sem fronteiras,

da Amazônia infinita, das selvas colombianas...).


Eu canto

os camponeses, os índios

despojados de suas terras.

Os combatentes mortos no Peru

nas selvas do Araguaia

nas ruas de Santiago...


Toda a resistência conhecida

(ou anônima)

que houve, ou que haverá (?!) em nossa

Pátria Grande

Eu canto.


A coragem da mulher salvadorenha,

chilena, brasileira, uruguaya...

A saga das loucas

da Plaza de mayo.

De todas as esposas/mães/irmãs/amigas

de todas as fortes, calejadas, saudosas, resistentes

companheiras dos desaparecidos latino-americanos...


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


Por todo o sangue derramado

pelos povos.

Por tudo isso dito, e pelo que ficou

Ainda guardado, esperando o seu momento,

E c o a n d o :

Eu canto!


Júlio Garcia


*Este poema recebeu a ‘Menção Honrosa’ no XXI Concurso Literário Felippe D’Oliveira (Santa Maria – RS - 1997).

sábado, 3 de outubro de 2009

Poema


Altas horas


Os cães ladram na rua
fantasmas forçam a janela

A noite é longa e inodora
uma música
um poema
tua esquisita e cálida
lembrança

insônia
inquietude
a ausência dos
teus lábios &

meia garrafa de vinho

(altas horas)

Júlio Garcia - Primavera/2009