domingo, 16 de setembro de 2007

Encapuzados

Há um cheiro nefasto
há um cheiro podre
um cheiro sinistro de morte no ar.

Tiros facadas linchamentos
covardia encapuzada matando
linchando culpados e inocentes.

O país paraplégico
abestalhado/imbecilizado
apenas move a cabeça atordoada.

Conivência... impotência... prepotência...

O crime absurdo continuado.

A caça às bruxas
aos pobres
aos miseráveis.

A barbárie correndo de rédeas soltas
(sob a lua - pálida testemunha
sob o sol - o crime consumado).
- O horror estampado nas pessoas
o horror estampado nos jornais...

Há um cheiro fétido insistente
há um cheiro podre de carniça
um cheiro lúgubre de morte
no ar.

Júlio Garcia - 1994.

Último Trem


(para Jim Morrison)

O vidro da janela, embaçado, não permite distinguir direito
os fantasmas que cruzam as calçadas...
- Boa noite, amigo. O último trem para o inferno
vai partir!
(O redemoinho atira doido folhas poeira cacos
de vidro, dejetos nas paredes, ciscos, galhos, tudo...)

- Boa noite, irmão. A ponte vai ser dinamitada; as carnes
os ossos queimarão solenes
fedorentos e rápidos pelo napal
(impassível).

***

As roupas disformes
as botas
a alma em frangalhos
o pavor nos olhos vidrados
(o derradeiro epitáfio).

***

Figuras tétricas, sombras da noite
ameçando
Navalhas, punhais - o fio rasgando a carne
gemidos ecoando pela noite
drogas
risos insossos nos bordéis
meninas rotas doando-se por nada
vômitos, bêbados trancando as calçadas
a cidade, o país, o mundo
apodrecendo...

***

Ouvidos moucos não escutam
o troar da tempestade
olhos cegos não tremem mais
com a faísca súbita dos coriscos.

- Boa noite, camarada. A última batalha
acabou de ser travada.
Já vai partir o trem
para o inferno
(sem direito à passagem
de volta).

***

Ah Terra! ah futuro! ah perdas, perdas, sonhos ... vida...
sacrifício ...perdas totais
(desperdício).
A barbárie vencendo a guerra
(derradeira).

***

O vidro da janela, embaçado, não permite
distinguir direito os fantasmas
que cruzam
torpes
as calçadas...

-Boa noite, amigo.Não se atrase: o último trem
para o inferno
vai partir...


Júlio Garcia in 'Cara & Coragem' -1995.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007















Inverno em Porto Alegre


Dos plátanos, as folhas

em profusão, caem dos galhos

inundando com sua cor amarelo-ouro

as toscas calçadas da 'Praça de Maio'



Na praça - que antes tinha outro nome

(oficialmente, 'Argentina')

ainda hoje se ouvem os ecos das manifestações

dos estudantes, dos populares,

em idos não mui distantes...



O vento frio agita o que resta

das copas das árvores centenárias

cravadas no coração desta cidade.



- Êta vento que sopra inclemente

castigando ainda mais o corpo franzino

desta gente

- 'hóspedes' permanentes dos viadutos...



Neste inverno

mais uma vez Porto Alegre apresenta-se gélida

(o Sul do país

está 'antártico'...)


Júlio Garcia - do livro 'Cara & Coragem - Poemas - 1995

Foto: Jean Scharlau - Porto Alegre/RS

quarta-feira, 22 de agosto de 2007














‘Recuerdos’ de um bom combate

Outro dia, ao postar o poema ‘Inverno em Porto Alegre’, veio-me a lembrança um episódio ocorrido ainda na época da nada saudosa ditadura militar.

Já faz um bom tempo, mas, como diria um amigo meu, ‘parece que foi ontem!’

O ano era 1980, se não estou enganado.

A Argentina vivia, assim como o Brasil, sob as botas implacáveis de uma ditadura militar.

O ditador de plantão era o general Videla, o ‘pantera cor-de-rosa’.

No Brasil, era o general Figueiredo (aquele que preferia sentir o 'cheiro de cavalo' ao invés do 'cheiro do povo').

A tortura, o seqüestro e o assassinato dos presos políticos corriam soltos nos dois países, mas com maior intensidade no país dos nossos ‘hermanos’.

Pois o Videla resolveu fazer uma visita ao seu ‘colega’ brasileiro. E resolveu dar uma ‘esticada’ até Porto Alegre, onde participaria de algumas ‘solenidades’...

Resolvemos então, em solidariedade ao povo argentino, organizar um protesto contra a presença do ditador no solo brasileiro.

O ato político começou por volta do meio-dia no pátio da Faculdade de Direito da UFRGS.

Começou com pouco mais de 50 pessoas, a absoluta maioria composta por estudantes de várias faculdades, a maioria da ‘federal’, membros de DCEs, mais alguns secundaristas e militantes de organizações de esquerda.

Decidimos, após alguns discursos inflamados contra a ditadura de ‘lá e cá’, iniciarmos mais uma passeata.

Começamos a ‘subir’ a Avenida João Pessoa: passo acelerado, palavras-de-ordem, megafones a mil; os estudantes que estavam na ‘fila’ do RU da UFRGS foram chamados a participarem; alguns populares incorporaram-se, a adesão foi aumentando...

Quando a passeata chegou à esquina com a André da Rocha já contava com mais de duzentas pessoas. Para nós, já era uma multidão (segundo os critérios ‘drumondianos’)!

Eu integrava o ‘serviço de ordem’ (segurança) da passeata. Fomos avisados que a tropa-de-choque da Brigada Militar deslocava-se pela Salgado Filho e vinha em nossa direção.

Paramos momentaneamente a passeata para organizar a resistência. A orientação era ‘não aceitar provocação’, mas também não recuar.

Gritamos os slogans de praxe: ‘soldado da brigada, também é explorado’, ‘o povo, unido, jamais será vencido’, ‘o povo, na rua, derruba a ditadura’ etc...

Mas não adiantou, o ‘pau comeu solto’, com muita violência; o número de brigadianos era desproporcional ao dos manifestantes.

Os estudantes começaram a debandar pela Rua André da Rocha, pela Salgado Filho, pela João Pessoa, descendo em direção ao campus central da UFRGS...

Então, um grupo de manifestantes, acuados, sem alternativas, adentrou o Restaurante Universitário (RU), quebrando os vidros do saguão com os próprios corpos, perseguidos pelos brigadianos que não cansavam de baixar o cacetete nas suas costas, cabeças, braços...

Por milagre, ninguém saiu seriamente ferido...

Então, baixada a poeira, decidimos ‘ocupar’ o RU até a saída do ditador Videla do Brasil. A seguir, o RU foi declarado ‘território livre’, símbolo da resistência contra as tiranias!

Organizou-se o comando da ocupação, a vigília, turnos, tarefas... Palavras-de-ordem foram escritas nas paredes, murais... Um palco foi montado. Músicos, atores, militantes revezavam-se ao microfone, todos denunciando as ditaduras latino-americanas e manifestando solidariedade ao ‘movimento’...

Lembro que o pessoal do ‘Oi Nóis Aqui Traveiz’ também esteve lá e representou em nosso palco improvisado...

No outro dia estava marcada a ‘reinauguração’ da Praça Argentina, onde o ditador Videla descerraria uma placa alusiva.

Pela manhã a cavalaria da BM, juntamente com o ‘choque’e seus ‘equipamentos’, cachorros etc., ‘ocuparam’ a praça.

Organizamos então uma nova manifestação na calçada do Centro de Engenharia da UFRGS (o CEUE), que ficava em frente à praça.

Após algumas horas, veio a informação que incendiou os ‘resistentes’: a ‘reinauguração’ da praça e a visita do ditador foram suspensas!

Comemoramos nossa vitória com mais um ato improvisado, ‘mudando’ então o nome da praça para ‘Praça das Madres de Mayo’, em homenagem às mães argentinas (ou ‘locas’, vide a foto acima) que, corajosamente, denunciavam o desaparecimento de seus filhos pela repressão, ajudando a tornar conhecidos mundialmente os hediondos crimes praticados pelos militares direitistas do país vizinho.

Ficamos dois dias e meio naquela luta.

Quando o ditador Videla saiu do Brasil, encerramos o ‘movimento’ da ocupação do RU - e mais um episódio na luta contra as ditaduras latino-americanas.

Esse combate nós havíamos vencido!

As ditaduras no Brasil e na Argentina durariam ainda mais alguns penosos anos, mas também acabariam derrotadas pela força organizada e resistente do povo. (Por Júlio Garcia -Porto Alegre - junho/2007)

sábado, 18 de agosto de 2007















Eu Canto


Eu canto

com profundo prazer, com emoção

o povo que optou por ser livre

e que por isso sangrou.


Os heróis e os anônimos.


A América Latina

(vulcão em atividade permanente).

O fogo descendo pelas encostas das neves andinas,

Eternas, desafiadoras, majestosa...

E madrastas.


Guevara eternizando seu exemplo

nos vales e montanhas bolivianas.

Eu canto o feito épico

de Lamarca lutando contra a fome

e as injustiças no Vale da Ribeira.


As crianças da Nicarágua

entoando suas canções sandinistas

(que falam em um porvir

com rios de leite e mel).


Eu canto a epopéia vivenciada

pelos povos, todos, de nosso imenso

e explorado continente

(do Altiplano, das savanas, dos pampas sem fronteiras,

da Amazônia infinita, das selvas colombianas...).


Eu canto

os camponeses, os índios

despojados de suas terras.

Os combatentes mortos no Peru

nas selvas do Araguaia

nas ruas de Santiago...


Toda a resistência conhecida

(ou anônima)

que houve, ou que haverá (?!) em nossa

Pátria Grande

Eu canto.


A coragem da mulher salvadorenha,

chilena, brasileira, uruguaya...

A saga das loucas

da Plaza de mayo.

De todas as esposas/mães/irmãs/amigas

de todas as fortes, calejadas, saudosas, resistentes

companheiras dos desaparecidos latino-americanos...


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


Por todo o sangue derramado

pelos povos.

Por tudo isso dito, e pelo que ficou

Ainda guardado, esperando o seu momento,

E c o a n d o :

Eu canto!



Júlio Garcia



*Este poema recebeu a ‘Menção Honrosa’ no

XXI Concurso Literário Felippe D’Oliveira

Santa Maria – RS - 1997

Brasil/Bolívia




Respeitar a soberania e saber negociar

A decisão do governo boliviano de nacionalizar as reservas de petróleo e gás do país foi reconhecida - corretamente - pelo governo brasileiro como um legítimo 'ato inerente à sua soberania'. O presidente Evo Morales (e aqui não vamos discutir a oportunidade - ou não - de sua decisão; se o momento mais adequado seria esse - ou não; se deveria ter sido mais 'flexível' (?!) - ou não - nas conversações, nos prazos etc.) não está sendo mais do que coerente com o compromisso que assumiu durante sua campanha eleitoral. Evo não está traindo seu discurso, nem se propondo a enganar ninguém. E tem o apoio da absoluta maioria do seu povo, explorado e oprimido a mais de quinhentos anos pelos conquistadores imperialistas de ontem e de hoje. Agora, o novo governo boliviano acha que chegou a hora de dar um 'basta' à exploração do seu povo. Quem pode condenar essa decisão, soberanamente tomada pelos legítimos representantes dos índios, dos camponeses e dos trabalhadores da Bolívia, a não ser aqueles que querem eternizar a exploração dos povos latinoamericanos?

O presidente boliviano também já reiterou que não haverá suspensão do fornecimento do gás natural para o Brasil. A Petrobrás - que certamente poderá perder 'alguns anéis', não perderá 'os dedos': com serenidade, informou que tem todas as condições de garantir que o fornecimento continuará normal. Então, o que há de mais? O caminho que temos pela frente é - e não poderia ser outro! - o da diplomacia , o da negociação!

Diferentemente do que queriam os meios de comunicação dominados pelo capital (nacional e internacional) e a oposição raivosa, o governo Lula não entrou na cantilena hipócrita e alarmista dos que querem satanizar o presidente Evo Morales, aliás, como já tentaram fazer primeiramente com o próprio Lula e, após, com o presidente Hugo Chaves, da Venezuela. "O governo brasileiro agirá com firmeza e tranquilidade em todos os foros, no sentido de preservar os interesses da Petrobras e levará adiante as negociações necessárias para garantir o relacionamento equilibrado e mutuamente proveitoso para os países", diz a nota do Planalto.

Não era outra a postura que esperávamos do nosso governo. Aliás, um dos pontos fortes do governo brasileiro tem sido a política internacional implementada pelo Itamaraty. E o papel de agente do imperialismo não combinaria jamais com o que os povos latinoamericanos esperam do governo Lula.

Júlio Garcia - Poa - 03/05/2006

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Identificação

O Poeta não pode apenas
cantar a primavera
quando o inverno social
castiga seu povo

***

Não tenho, pois, as
pretenções acadêmicas
artificiais
com seu lirismo de salão e seus manuais
bolorentos,
bem comportados
que somente privilegiam
o ego(ista).

Minha poesia será feita
com os pés no chão,
identificada com 'o homem',
com 'a terra',
com o social(ista).

Quem sabe não serei apenas
o poeta dos maltratados
dos indigentes
dos exilados
sociais...

O 'ecológico poeta'
dos córregos
e dos rios
assassinados
das matas
destruídas
pelo 'progresso'
reacionário.

- o poeta da fome
- o poeta solidário
- o poeta do sonho
e da liberdade.

O Poeta não pode apenas
cantar a primavera.

Júlio Garcia, 1994

domingo, 12 de agosto de 2007

















Santiago



Não preciso esforço

para cantar Santiago

- dos poetas

- dos trovadores

- do Boqueirão.



Santiago dos paralelepípidos

tão regulares

das ruas largas

das calçadas falhas

da falta de praças...



Santiago

das crianças pedintes

dos latifúndios

dos sem-terras aceitos

a contragosto!



Santiago dos contrastes:

Dos 'amigos de Beethoven'

das 'forças vivas'

dos enjeitados sociais

dos trogloditas rurais

e urbanos!

Da 'ação da cidadania'

do solidarismo!



Santiago dos confrontos

do passado

& do presente

das revoluções

da nostalgia

da igreja histórica

assassinada

das carreiradas

das carreteadas

(ainda vivas na memória do povo)



Santiago das serenatas

das festas

do Caleche

do Porto e do W

do Mais qui Bar

do Vista Alegre...

Dos cines Neno e Imperial

(onde as fantasias e as paixões

corriam desenfreadas)



Santiago verdejante

pródiga de natureza

- das paisagens do Pilão D'água

- da Serra do Iguariaçá

e da Lagoa do Junco

(onde a Natureza, ainda!, é preservada)

...



Santiago da esperança

fraterna

despreconceituosa

das crianças bem nutridas

sem exclusões - e sem males!

Santiago do porvir!


Júlio Garcia


* Do livro 'Cara & Coragem' - Poemas - Ed. Alcance/Poa - 1995)

sábado, 11 de agosto de 2007

Resenha

'Germinal'

"Na estrada de terra que liga a pequena cidade de Marchiennes à de Montsou, no Norte da França, um homem caminha, só, durante a noite sem estrelas”.

O homem tinha saído às duas horas de Marchiennes e caminhava com passos largos, tremendo sob o vento glacial. Uma única idéia ocupava o pensamento desse operário desempregado: a esperança de que o frio diminuísse com o raiar do dia”.

Assim inicia ‘Germinal’, magistral obra do escritor francês Émile Zola, sem dúvida um dos grandes romances do século XIX, expoente maior da escola que ficou conhecida como ‘naturalismo literário’.

Émile Zola baseou-se para escrevê-la em acontecimentos verídicos ocorridos nas minas de carvão do Norte da França, em 1867, período da Revolução Industrial. Trabalhou como mineiro e como repórter, vivenciando e testemunhando a duríssima realidade social e a brutalidade do cotidiano nas minas, onde a insegurança, as péssimas condições de vida e de trabalho, aliadas a salários escorchantes, a exploração desumana de uma carga horária de até 16 horas diárias que não poupava sequer velhos, mulheres e crianças, somadas à fome, miséria e promiscuidade eram a tônica.

Segundo explica Silvana Salerno, tradutora da obra editada pela Cia Das Letras/2000 e também responsável pela sua adaptação “Germinal é o nome do primeiro mês da primavera no calendário da Revolução Francesa. Ao usar essa palavra como título de seu livro, Zola associa as sementes das novas plantas à possibilidade de transformação social: por mais que se arranquem os brotos das mudanças, eles sempre voltarão a germinar”. Informa ainda que “Germinal é o primeiro romance a enfocar a luta de classes no momento de sua eclosão. A história se passa na segunda metade do século XIX, mas os sofrimentos que Zola descreve continuam presentes em nosso tempo. É uma obra em tons escuros. Termina ensolarada, com a esperança de uma nova ordem social para o mundo”.

Silvana Salerno está coberta de razão. A leitura de Germinal é, sem nenhum exagero - e por todas as razões já elencadas - imprescindível. Está também disponível em vídeo, através de uma produção francesa de 1993, muito bem dirigida por Claude Berri, trazendo no elenco nada mais nada menos do que Gerárd Depárdieu, Miou-Miou, Jean Carmet e Jean-Roger Milo, dentre outros excelentes atores.

Para concluir, vejam só a profunda esperança no porvir, a certeza da vitória final dos trabalhadores, recheada da mais pura poesia, inseridas nesse fecho extraordinário que Émile Zola dá para sua obra magistral, agora buscando a tradução de Francisco Bittencour (Abril Cultural, SP - 1981):

“Agora, em pleno céu, o sol de abril brilhava em toda sua glória, aquecendo a terra que germinava. Do flanco nutriz brotava a vida, os rebentos desabrochavam em folhas verdes, os campos estremeciam com o brotar da relva. Por todos os lados as sementes cresciam, alongavam-se, furavam a planície, em seu caminho para o calor e a luz. Um transbordamento de seiva escorria sussurrante, o ruído dos germes expandia-se num grande beijo. E ainda, cada vez mais distintamente, como se estivessem mais próximos da superfície, os companheiros cavavam. Aos raios chamejantes do astro rei, naquela manhã de juventude, era daquele rumor que o campo estava cheio. Homens brotavam, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos sulcos da terra, crescendo para as colheitas do século futuro, cuja germinação não tardaria em fazer rebentar a terra”. (Por Júlio Garcia - Porto Alegre - maio/2007).


Navalha na hipocrisia



Os nossos aproximadamente vinte leitores assíduos - números otimistas! - sabem que este blog (que esta semana superou a marca dos doze mil acessos, para nossa surpresa... e satisfação!), em que pese reconhecer e apoiar muitas das ações positivas do governo Lula (e criticar construtivamente várias outras, sempre que julga necessário!) - justamente por isso ... não pode ser considerado mais um blog ‘chapa branca’. Estamos, portanto, muito a vontade para discorrermos sobre – e principalmente – os últimos acontecimentos verificados por ocasião da chamada ‘Operação Navalha’, que está cortando muito profundamente a carne de corruptos e corruptores que grassavam, até então, com a impunidade total e absoluta, pelo menos nos últimos quarenta anos (ou mais!) em terras brasilis (a propósito, leia a postagem abaixo, do Luiz Carlos Azenha).

No momento em que a lâmina corretamente manejada pela Polícia Federal, sob a hábil e determinada batuta do Ministério da Justiça, penetra cada vez mais fundo no tecido putrefato da corrupção, ouvem-se reações as mais variadas dos setores que já foram atingidos - ou que o serão num futuro próximo (esperamos!) pela enérgica mas necessária ação da PF.

É claro que eventuais excessos (se ocorreram) nesta operação, assim como em todas as demais, devem ser investigados, os responsáveis punidos, o direito – sempre – preservado. Aliás, essa é uma determinação do presidente Lula e do Ministro Tarso Genro.

Mas o que vimos hoje nas declarações contundentes de certos juizes, desembargadores, jornalistas, advogados e políticos é um misto de desespero e de hipocrisia que tem por objetivo desviar o foco das atenções, na tentativa de salvarem seus pescoços, ameaçados que estão pela 'guilhotina' ... da justiça. Vozes togadas, diplomadas, colarinhos brancos, convivas eternos e impunes dos banquetes do poder, bolsos forrados às custas da miséria e da desgraça de muitos, alardeiam agora o perigo a que está submetido o ‘Estado Democrático de Direito’. As mesmas vozes que nunca se manifestam quando a ilegalidade contumaz de nossas polícias recai sobre os despossuídos, os desempregados, os sem-tetos, os desesperados, os sem-terras, os sem futuro, os moradores das favelas, dos guetos, das periferias que têm cotidianamente suas famílias desrespeitadas, agredidas, seus filhos mortos, torturados, suas casas invadidas, ‘pedaladas’ sem ordem judicial, vítimas constantes da prepotência, dos desmandos, das injustiças, das ‘balas perdidas’...

Mas hoje, no fundo, sem tergiversações, indo no cerne do problema, 'direto ao assunto': o que mais importa é que governo federal - para os céticos, reacionários e derrotistas, o 'Governo Lula' - está determinado a dar um basta à roubalheira e à impunidade.

É disso do que se trata. O resto é dissimulação, hipocrisia, cortina de fumaça. (Por Júlio Garcia – maio/2007)